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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Contracorriente


Hoje é dia 29 de junho, dia de São Pedro, feriado, todos os meus amigos estão tomando uma cervecinha essa hora, e eu não estou junto pois: sem granas, e morando no interior. A vida é dura pessoal. Mas enfim, estou em casa e decidi assistir alguns filmes, e como estou tentando aprender/aperfeiçoar meu espanhol, decidi fazer uma lista de filmes latino americanos para assistir no netflix. Não foi meu primeiro contato com filmes latinos, já tive ótimas experiências, mas o filme que eu assisti hoje me deixou muito mexida e motivada a falar sobre, justamente pela coincidência do dia em que resolvi assisti-lo.

Já é dia 29 pois já passa de 00:00, mas ontem, dia 28, foi o dia internacional do orgulho lgbt. A causa é celebrada mundialmente no dia 28 de junho, depois de um episódio de resistência em Nova York, em 1969. No bar Stonewall Inn, ponto gay da cidade, os frequentadores se voltaram contra as frequentes batidas policiais às quais eram submetidos. No ano seguinte, foi organizada a primeira parada gay do mundo, para lembrar do ato.

Por coincidência, o filme que eu resolvi ver foi o peruano Contracorriente (2009), sem ler sinopse nem nada, o que foi até bom, porque a surpresa foi muito melhor. Não costumo falar de filmes aqui porque não entendo muito de cinema, mas eu tinha que falar pra vocês sobre esse que é maravilhoso.

Contracorrente é o primeiro longa-metragem do roteirista e diretor peruano Javier Fuentes-León, é bastante surpreendente. É inesperado, corajoso, e muito bom. A ação se passa num povoado de pescadores no litoral do Peru, uma sociedade de terceiro mundo, latino-americana, pobre, religiosa, e portanto conservadora, apegada a tradições, machista.

Fala de infidelidade conjugal e de homossexualidade. De enfrentamento das regras sociais, de ruptura com os comportamentos esperados, de quebra de tabus.

A trama criada por Javier Fuentes-León tem um pouco de Dona Flor e Seus Dois Maridos: o amante morto do protagonista continua presente, exatamente como Vadinho continuava presente na vida de Flor. Dona Flor, o romance de Jorge Amado, é de 1966.

O maravilhoso é que tudo funciona. É, repito, uma bela história, um bom filme – sensível, honesto, corajoso, bem intencionado, tão correto na moral quanto no talento com que é realizado.

Quando estamos chegando aos 9 minutos de filme, vemos que Miguel e Santiago têm uma relação de amor.

Ainda estamos no princípio da narrativa, e o filme mostra um sexo, bem massa, por sinal, dos dois.

A fotografia do filme é um esplendor. Há paisagens magníficas, realçadas pela fotografia maravlhosa. Há tomadas subaquáticas de qualidade de tirar o chapéu. Mas o que mais impressiona são as atuações. Não há ninguém no elenco com atuação ruim.

O ator que faz o protagonista Miguel, Cristian Mercado, é boliviano, tido, segundo o IMDb, como um dos mais destacados atores de teatro do seu país. Sua filmografia, pequena ainda, com nove títulos.

Manolo Cardona, que faz o forasteiro Santiago, é colombiano; tem 22 títulos no currículo, inclusive diversas minisséries da TV da Colômbia.

A única peruana entre os papéis principais do filme é Tatiana Astengo, que faz (muitíssimo bem) o papel de Mariela, a mulher que o marido trai com outro homem. Tem 27 títulos no currículo.

É a não aceitação do próprio Miguel com sua afeição por Santiago, é a mulher Mariela, grávida, apaixonada, tentando resgatar um casamento sem saber como, é o amor, e a devoção de Miguel pela mulher, o filho e o amante de maneira intensa e o sofrimento justamente por isso, é o medo e a discriminação de amigos, são segredos, religião.

Ciente do suicídio social que seria assumir sua homossexualidade em um ambiente inóspito como aquele, Miguel é obrigado a repensar seu próprio preconceito ("Eu não sou aquilo", afirma ele para Santiago, em certo momento) para resolver a angustiante situação em que se encontra. Assim, é interessante notar que ele só começa a aceitar de fato sua natureza homossexual quando consegue viver sua paixão sem julgamentos externos, o que só é alcançado na interação com o fantasma de Santiago. Mas, nesse ponto, é o pintor quem deseja partir, algo que, somado às fofocas surgidas depois que indícios da relação entre eles foram descobertos na casa do então desaparecido, coloca Miguel em uma encruzilhada que se torna o centro da narrativa (e certamente justifica o título do longa): ou ele vai contra seus sentimentos em prol da manutenção do prestígio social, ou enfrenta suas próprias inseguranças e abraça sua verdadeira natureza para que possa viver plenamente com si mesmo e com a memória de Santiago.

Optar por esta última opção, obviamente, não é uma tarefa fácil, já que o preconceito faz parte do dia-a-dia daquelas pessoas mais do que elas mesmas conseguem notar.

A presença da igreja, além de ressaltar o aspecto conservador da comunidade, surge como uma oportunidade perfeita de alfinetar uma instituição que, ao mesmo tempo que condena a homossexualidade, prega mensagens de aceitação e amor ao próximo. Também não à toa, Miguel utiliza constantemente (não tira nem durante o sexo) um terço pendurado no pescoço, representando sua submissão ao conservadorismo que o cerca - e Fuentes-León demonstra inteligência ao fazer com que o personagem abandone o objeto minutos antes de alterar de vez sua postura.

Por fim, Contracorriente ainda consegue ressaltar que, enquanto uma pessoa não parar de se importar com o que os outros pensam sobre ela, nunca conseguirá ser plenamente feliz e realizada. E, por mais forçada que seja a sutil mudança de comportamento do povo de Cabo Blanco, a mensagem arrematada nos minutos finais é eficiente, contundente e universal: quando se trata de ser humano (um ser sujeito a sofrimentos e imperfeições), a intolerância é nada menos que abominável.

Toda forma de amor deveria ser bem vista aos olhos de todos, o grande foco do preconceito está no fato de que as pessoas não sabem definir o que seja, efetivamente, o amor ou formas de amar. Não há melhor amor, amor mais bonito ou amor mais certo. Apenas amor. O amor não faz distinção entre sexos, condição financeira, raça ou religião. A partir do momento que percebemos que o amor é um só, para todos, começaremos a entender que todos são iguais e tem os mesmos direitos e obrigações.

Meu conselho pra vocês, hoje, é esse, vejam esse filme, e também sejam livres pra amarem do seu jeito é claro.


quinta-feira, 26 de maio de 2016

Vamos falar sobre a cultura do estupro?


Todo momento é um bom momento pra se debater sobre esse assunto, mas ESSE momento não poderia ser menos propício.

Todo mundo que tem acesso a internet, facebook, twitter, já sabe que, recentemente, uma moça foi drogada e estuprada por mais de 30 homens, segundo eles mesmos. Como se isso já não fosse um horror por si só, eles ainda a filmaram nua, mostrando suas partes, fazendo piadas com o estado em que a deixaram. Fazendo piada com o número de homens que a estupraram enquanto a mesma estava inconsciente.

Eu tenho uma conta no twitter, e o vídeo apareceu na minha timeline, eu abri, mas confesso que não aguentei ver até o fim, e só fiquei sabendo que tinham sido mais de 30 homens pelos posts que as pessoas, também indignadas, fizeram depois. Queria eu que fosse mentira.

MAIS DE 30 HOMENS.

Foi impossível, eu, como mulher, vulnerável nessa sociedade escrota e patriarcal, não me colocar no lugar dessa menina, foi impossível não chorar ao ver a declaração da mesma dizendo que quando acordou tinham 33 caras em cima dela. Eu não consigo nem imaginar o seu desespero.

A violência contra a mulher é tão naturalizada, que não só a estupraram, também filmaram e postaram na internet, isso quer dizer que, por mais que uma certa maioria tente negar e relativizar isso, NÓS VIVEMOS NA CULTURA DO ESTUPRO, SIM. Isso poderia ter acontecido comigo, com você. Isso não é doença, nem loucura, é a naturalização da perversidade contra nós mulheres. A tolerância e a normalização acabam incentivando ainda mais as atitudes violentas.

E aqui estamos falando do que é aceito como normal pela sociedade. Se você for mulher, tenho toda a certeza de que já passou por ao menos um episódio de abuso, seja na rua recebendo uma cantada, no transporte público com homens encostando em você ou mesmo dentro de um relacionamento quando a outra parte envolvida não soube aceitar um “não”.

Alguns dos comportamentos e atitudes que ajudam a reproduzir a cultura do estupro são:

- Achar que estuprador é só aquele cara desconhecido que ataca uma mulher no meio de uma rua escura, às 2h da madrugada.

- Achar que existe um meio-termo quando se trata de estupro.

- Romantizar a conquista a qualquer preço e achar que um ‘não’ pode significar um ‘sim’ se ele não é dito com ênfase.

- Culpar a vítima e praticar ‘slut-shamming’.

- Cantadas de rua também ajudam a perpetuar a cultura do estupro.

- Dizer que a vítima pode evitar o estupro.

- Roupas e acessórios “anti-estupro”.

- Piadas de estupro.

- Medo de denunciar é algo normal numa sociedade que culpa as vítimas, não acredita nelas ou vê o estupro delas como algo menor, desde a polícia e o médico legista até a família.

- Minimizar quando o estuprador é famoso.

- Minimizar o estupro quando ele acontece com minorias.

- A “Friend Zone” é a ideia de que um “cara legal” possa ser colocado em uma zona de amizade sem sexo por uma mulher próxima que injustamente não percebe que ele é o par romântico perfeito pra ela. A narrativa da friend zone coloca o foco no sexo como uma recompensa por ser uma boa pessoa.

Se homens estupram em nome da sua masculinidade, mulheres são estupradas em nome da sua feminilidade. A mulher, quando nega uma relação sexual, é vista como alguém que provoca o homem, mas na hora H, não quer sexo. E é aí que aparece a culpabilização. As vítimas de estupro aprendem a se sentirem culpadas. “Alguma coisa elas fizeram pra merecer isso”.

O uso da força é o requisito básico do comportamento masculino que as mulheres foram treinadas desde a infância a temer. Desde pequenas, não estamos em pé de igualdade nesta competição. Quem nunca ouviu que “brincar de lutinha é coisa de menino”, por exemplo? Enquanto eles são incentivados a buscar a força física, somos incentivadas a brincar de casinha.

O estupro deve ser visto como uma forma de violência, poder e opressão masculina, uma forma consciente de manter as mulheres em estado de medo e intimidação.

Que fique bem claro então: estupro não é um crime relacionado a sexo ou desejo sexual. O estupro se refere a uma relação de poder: trata-se de um processo de intimidação pelo qual os homens mantêm as mulheres em um estado de medo permanente.

Assim, ao observar a nossa sociedade nos dias de hoje, podemos claramente enxergar como a cultura do estupro continua viva. Hoje a sociedade ainda leva em consideração a maneira como a vítima está vestida e até mesmo sua vida e hábitos. Se a mulher está vestida de forma tida como provocante, isso é considerado um atenuante para o agressor. Se ela tiver vários parceiros, beber demais ou voltar muito tarde para casa, também.

As mulheres vêm obtendo êxito na conquista de certos direitos sociais e progredindo em direção à igualdade de gênero. Mas a desigualdade, no entanto, ainda não foi totalmente ultrapassada, sendo um reflexo da tradição patriarcal da sociedade.

Uma coisa fica nítida: as mulheres não são vistas como seres com vontade própria, são consideradas propriedade dos homens. Cabe às mulheres obedecerem às regras masculinas – ser feminina, falar baixo, aceitar ser vista como objeto sexual pois “homem é assim mesmo”. E quem não aceita as tais “regras masculinas” é culpada por tudo o que lhe vier a acontecer.

Enfim, pra não me alongar mais, a cultura do estupro é uma estrutura onde a mulher é culpada por qualquer constrangimento sexual que venha a passar. Uma sociedade que acha normal uma mulher ser constrangida na rua por uma cantada; normal uma mulher ser estuprada por estar bêbada ou usando roupas curtas; normal uma mulher ser forçada a fazer sexo com o companheiro, afinal, ele é seu marido ou namorado; normal uma mulher ser vista apenas como objeto para satisfazer as vontades alheias; normal uma mulher ser intimidada por homens heterossexuais quando é lésbica, porque na verdade ela tem que aprender a gostar de homem. E é exatamente essa normatização que precisa ser combatida.

Toda a minha empatia para essa moça, as pessoas que fizeram essa barbaridade com ela serão punidas, e eu como mulher me sinto muito aliviada, mas o que ainda me deixa triste é saber que as outras mulheres que são estupradas todos os dias e não são veiculadas na mídia, continuarão com o terror de terem seus estupradores livres e impunes. Por isso, eu imploro para que todas as mulheres se unam. Cuide da sua filha, da sua irmã, amiga, colega de trabalho, da desconhecida que está bêbada em uma festa e que se perdeu. Cuide da mãe que não encontra a filha e está pedindo ajuda. Cuide da sua avó. Cuide da professora que não está ouvindo os absurdos sobre ela durante a aula. Cuide de mim.

Uma jovem foi violentada por 30 homens e eu não pude cuidar dela. Eu não pude proteger o seu corpo e alma. Mas eu posso cuidar de você. E você de mim.

terça-feira, 29 de março de 2016

Você também é Bolsominion?


Olá amigos, tudo bem com vocês? Faz tempo que eu não apareço por aqui. Ando sem tempo, sem coragem, sem criatividade etc. Mas hoje quero falar com vocês sobre um assunto que eu nunca falei aqui neste recinto: política. Sim, amigos, chegou a minha vez. Não necessariamente seria politica, mas uma pessoa em especial da qual todo mundo já tá cansado de falar, o que até acaba fazendo com que a pessoa se torne mais popular, mas whatever, vamo falar de novo sim, porque a gente vive em uma democracia né nom? (pelo menos até agora).

Nessa semana, no grupo do facebook do meu antigo colégio, resolveram fazer a seguinte enquete: “SE AS ELEIÇÕES FOSSEM HOJE, EM QUEM VOCÊ VOTARIA PARA PRESIDENTE/A DA REPÚBLICA?” Dentre as opções Marina Silva, Lula, Ciro Gomes, Aécio, etc, e até “Outro”, a opção mais votada me chamou muito a atenção. Ok que aqui no Brasil todas as nossas opções são bem ruins, pra falar a verdade, mas daí todos esses jovens afirmarem que são eleitores do -tã nã nã nã suspense- Bolsonaro me surpreende demais. Calma galera, não tô querendo saber mais do que ninguém (até porque eu não sei de nada mesmo), ou achar que minha opinião é sempre a única e certa, até porque ela é só minha opinião e eu tenho direito de expor (isso porque nosso presidente não é o Bolsonaro rsrsrsr), eu só queria tentar entender o que leva alguém, principalmente jovens de 15 a 18 anos de idade votarem em uma pessoa que afirma que "mulher deve ganhar um salário menor do que o homem, porque engravida", porque realmente é algo que me deixa com medo.

Lendo mais um pouco (porque também não quero ninguém aqui me chamando de burra né), o que eu entendi é que essas pessoas que afirmam a torto e a direito (amo usar essas expressões rsrsrs) votar no deputado Jair Bolsonaro, e chamam ele de bolsomito (os famosos bolsominions) representam uma parcela da população que tem medo. E o medo faz com que essas pessoas busquem alguém que as defenda.

O cara diz que bandido bom é bandido morto e que não tem esse negócio de ser menor, se é “vagabundo” deve ser preso e pronto. E que o regime militar era bom porque havia “segurança” e quem foi preso pelo regime militar é porque “merecia” e quem era cidadão de “bem” não tinha medo.

Na verdade o deputado expressa a opinião de quem tem medo e não vê a ação efetiva do Estado combatendo esse medo, oferecendo respostas democráticas. Por isso as pessoas buscam saídas que julgam eficientes, mesmo que não sejam democráticas. Por que a democracia deve ser um valor maior do que a segurança e o bem estar? Como exigir isso das pessoas? Somado a isso temos uma ausência de construção de valores democráticos muito grande. Não há esse debate nas escolas; não há esse debate nos meios de comunicação; não há esse debate nas famílias. Como exigir que as pessoas se comportem de um jeito em relação ao que nunca tiveram ou tiveram muito pouco? Medo não exige aprendizado. Medo busca proteção. E Jair Bolsonaro oferece. E as pessoas votam nele.

Muita gente – eu, por exemplo – não concorda com isso. Quando chega então na galera que tudo é uma conspiração diabólica, comunista, bolivariana, gayzista, feminazi que se instalou na América Latina e se reúne no Foro de São Paulo, entre camisas do Che Guevara, eu fico bem perplecta. Gente que acredita que o assassinato, a tortura ou o estupro de seres humanos pode ser justificável. Que tem certeza de que bandido bom é bandido morto, mas é melhor bandido do que homossexual não é verdade? Pessoas que tem certeza de serem corretas, guardiãs da moral e dos bons costumes. Que tem pavor de mudanças que podem lhes tirar privilégios, “direitos adquiridos”. Estão todos, como já disse à espera de um salvador, e esse salvador, é o Bolsonaro.

Eu tento entender essas pessoas de alguma forma, e isso do “medo” me pareceu ser o único jeito, mas pra mim a maioria de seus eleitores só querem uma desculpa pra serem asquerosas em paz. O foda é que no meio de tudo isso há muito ódio, mas como diz a senhoura Inês Brasil, a gente tem tudo é que se amar irmãos, ter carinho um com o outro, sem fazer mal a ninguém. #paz



Eu não entendo muito de política não galera, só quis mais falar o que penso mesmo, me desculpem se falei alguma burrice, também pesquisei muito pra não falar nenhuma besteira, então valorizem meu esforço, um beijo no core e até a próxima.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Um pouco sobre ser "um bicho"...

Oi, meu nome é Luiza, tenho 19 anos, moro em São Miguel dos Campos, interior de Alagoas, porém não seja muito do meu agrado, e tenha muita vontade de ir morar em Maceió, o que facilitaria muito a minha vida. Atualmente curso o primeiro período de História, na Universidade Federal, mas ainda anseio cursar jornalismo, pois, acho que realmente é o que eu quero fazer. Sou solteira, não tenho filhos, moro com meus pais e não trabalho.

Então, muito fácil escrever tudo isso, teria sido bem mais fácil ter escrito tudo isso sobre mim na semana passada ao invés de falar. Falar em público. O que é um verdadeiro pesadelo pra mim. Minha vida teria sido bem mais fácil todos esses anos se ao invés de falar, eu pudesse escrever. Segunda-feira passada, eu me vi em apuros quando tive que falar essas mesmas palavras pra apenas 10 pessoas numa sala, toda sem jeito, sem saber onde pôr as mãos, sem saber pra onde olhar, tremendo (de nervoso e de frio, pois a estagiária deixou o condicionador de ar no modo: “frio pra caralho se fode aí vocês otários sou estagiária quero que vocês morram”. Traduzindo: eu fui um desastre. E só precisava falar essas coisas inúteis.

Carrego desde o dia em que nasci um fardo nas costas, muito conhecido como: Timidez Aguda.

Sempre foi assim minha vida inteira, desde exatamente sempre. Das crianças da família eu era aquilo que eles chamavam de: matuta (perdoa meu dialeto de interiorana e não desiste de mim). Eu não dançava nas festas, eu não falava com as visitas, eu não conseguia interagir com as outras crianças. E se você tem uma tia extra malvada daquelas que só falta a verruga no nariz e uma 38 na sua mão, sua vida se torna um pesadelo, pois ela vai infernizar sua vida te puxando pro meio da roda onde as outras crianças estão dançando, à força, vai te fazer passar vergonha na frente das visitas dizendo: “ah, ela não fala, é muda”, e outras atrocidades de tias bruxas. Na escola, até a 8ª série, eu não tinha tantos problemas, pois minha turma era a mesma desde a 1ª série. Mas a coisa muda de figura quando no dia de cantar o Hino Nacional a diretora te chama a frente pra fazer uma oração e depois puxar o Hino, e você não consegue emitir uma só palavra e fica olhando pro chão enquanto todo mundo espera você começar, até que ela cansa de esperar e manda você voltar pra fila. E quando outra pessoa vai lá e faz o que era tão fácil e você não fez, ela olha pra você e fala: “é assim que se faz”. Não sou obrigada a rezar na escola, nós vivemos num Estado Laico, sua burra.

Quando eu entrei no ensino médio, e tive que mudar de escola, foi um verdadeiro choque, eu não consegui fazer amigos, vivia sozinha, rezando pra minha mãe me tirar dali e me mandar de volta pra  outra escola. Nunca consegui apresentar bem um trabalho que fosse durante todos os 4 anos, eu preferia fazer prova a apresentar trabalho. Lógico que parece exagero, fodam-se vocês, mas eu tremia, até já cheguei a chorar, e alugava os ouvidos dos poucos (mais necessariamente 2) amigos que eu fiz dizendo que não ia conseguir, e quando chegava lá na frente só fazia merda, lia com a cabeça baixa sem olhar pra ninguém e quando acabava voltava correndo pro meu lugar. Lógico que a partir do 3º ano eu desencanei dessas merdas, virei vagabunda e não tava mais nem aí pra trabalho, e fazia recuperação.

Parece que ser tímido é um pecado dos mais graves. Se você for até o dicionário mais próximo e procurar sinônimos pra palavra "tímido", o que você vai encontrar são termos como medroso, débil, dúbio, fraco, frouxo. Isso porque, na nossa cultura é obrigatório ser incisivo e comunicativo.

Se você é tímido, a primeira coisa que as pessoas vão falar que você é, é antipático. “Nossa, você viu aquela metida, chega não fala com ninguém, antipática, fica calada, se acha melhor que todo mundo”. A segunda, é antissocial, o que eu não deixo de ser um pouco, pois segundo minha melhor amiga que me conhece há mais de 10 anos, sabe bem como eu sou e deveria me entender, eu sou “um bicho”. O que ela e a maioria das pessoas não entendem, é que quanto mais você incentiva uma pessoa tímida na frente de outras pessoas, a não ser tímida, mais tímida ainda ela vai ficar. Eu não entendo o porquê de vocês acharem que dizendo pra uma pessoa tímida parar de ser tímida, ela realmente vai parar de ser tímida.

Seria muito bom se fosse assim tão fácil. Porque o tímido não escolheu ser tímido. Ele se tornou tímido por algum motivo.

Uma vez à vontade, o tímido é tão engraçado, sociável e simpático como qualquer outra pessoa. Não adianta forçar, falar coisas do tipo: “interage, parece que não ta gostando” “para de ser tímida” “se solta”. Espera, caralho, quando eu me sentir bem e achar que eu posso falar minhas merdas sem passar vergonha eu vou falar, ou então enfia cachaça em mim porque só assim eu posso aguentar você enchendo meu saco.

Outra coisa, que se eu acabo de conhecer alguém, ou me encontro num grupo de pessoas que eu não conheço, eu não vou chegar metendo o nariz onde não fui chamada, não gosto de ser inconveniente, e odeio gente que é. Se eu to na fila de um banco, não vou virar pra você e falar: “Poxa, ta calor, né? E essa fila que não anda rsrs” Não, eu não vou, porque eu não te conheço. Se for a primeira vez que um amigo me apresenta a outros amigos, com certeza eu vou ficar calada até que alguém fale comigo, não por ser chata, mas por não querer ser intrometida, e principalmente passar vergonha. Incomodar é uma coisa que realmente me deixa incomodada. Ser o centro das atenções mais ainda, por isso no meio de “estranhos” nunca me peça pra falar mais um pouco de mim ou coisa parecida, eu com certeza vou gaguejar. E por favor, se você é meu amigo de verdade e estiver comigo em algum lugar, não me deixe sozinha muito tempo com pessoas que eu não conheço, se elas não iniciarem uma conversa comigo, eu vou procurar um lugar pra poder enfiar minha cabeça e passar o tempo com ela lá até você voltar.

Chegar atrasada pra uma festa e ficar oprimida demais pela visão de todas as pessoas que já estão lá.

Coisa mais constrangedora da vida é chegar na casa de um amigo na hora de alguma refeição.

- Oi, Luiza, quer almoçar?

- [Vergonha Level 1] Não, obrigada.

- Senta, come só um pouquinho.

- [Vergonha Level 3] Não, eu acabei de comer, to sem fome.

- Mas vai fazer essa desfeita?

- [Vergonha Level 6] É verdade, eu não to com fome.

- Fulana, pega um prato que a Luiza vai comer com a gente.

- [Vergonha Level 9] Eu não quero de verdade.

- (Coloca o prato na mesa, te pega no braço, te senta e enfia comida na sua goela a baixo)

- [VERGONHA NÍVEL MÁXIMO DE TODAS AS VERGONHAS DO MUNDO] (Você come)

Tenho orgulho de dizer que minha mãe é dessas, mas quando ela começa eu dou logo uma lição nela pego pelos cabelMentira, gente, mas como eu sei bem o sentimento de desespero em que a pessoa tímida fica pra evitar ao máximo comer na frente da família dos amigos (ou estar sem fome mesmo) eu digo: STOP, please.

Às vezes, incrivelmente me dá um surto de coragem e eu consigo interagir com as pessoas de primeira, mas aí eu com certeza estarei bêbada, ou gosto das pessoas por já ouvir falar, e me sinta bem pra poder falar sem passar vergonha. O problema nunca é a outra pessoa, sou eu que tenho medo de parecer idiota e burra assim como uma primeira impressão.

Enfim, ser tímida, realmente, pelo menos pra mim, nunca me ajudou em nada, só me atrapalhou. Mentira. Me ajuda a não ser sem noção, isso é uma vantagem. Mas aí eu chego no twitter e estrago tudo, verdade. Se eu pudesse escolher, é lógico que eu não seria assim, eu interagiria com a família dos meus amigos sem problema nenhum, pra eles não dizerem que eu sou um bicho, quando com fome (o que acontece sempre) lógico que eu aceitaria a comida oferecida, faria amizade com os amigos dos amigos, e falaria em público sem tremer e olhar pro chão. Por enquanto eu só vou tentando contornar, porque my friends, é foda, eu não sou chata (mentira, sou sim), ou antipática (tbm sou sim), só sou na minha e tenho medo de falar com as pessoas até me sentir a vontade ou ver que não estou incomodando ou vou falar alguma besteira (é verdade, eu sou um bicho). Sei bem como sou desajeitada com tudo, por isso não arrisco. E sempre vai ter aquele pra perguntar por que você é tão calado, ao invés de só te deixar ser tímido em paz. Só tenham paciência comigo, eu sou legal (mentira).